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Profissionais debatem sobre os desafios e novas abordagens para o diagnóstico da hanseníase

Crédito da foto: Igor Flávio

A epidemiologia, os desafios e os entraves operacionais no combate à hanseníase no Brasil e as novas abordagens para o diagnóstico da doença foram alguns dos temas debatidos nas mesas redondas do 15º Congresso Brasileiro de Hansenologia, realizado em novembro no Centro de Convenções Arnaud Rodrigues, no município de Palmas, no Tocantins. Durante o evento também foram comemorados os 70 anos da Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH).

De acordo com o presidente da SBH, Cláudio Salgado, o maior desafio continua sendo o diagnóstico da enfermidade, que por algum tempo foi considerada extinta e foi, inclusive, retirada da grade curricular das universidades. “O principal entrave é que o sistema não está preparado para isso. Temos profissionais de saúde que estão trabalhando na estratégia de saúde da família e que não estão preparados para fazer a detecção da hanseníase, fato que constatamos sempre que se resolve fazer um trabalho diferenciado”, ressaltou Salgado.

“Ao capacitar os profissionais da atenção básica, você precisa ter referências para uma série de exames que os pacientes precisam fazer e opções de outros medicamentos para tratá-los, se for o caso de mudar o remédio. As equipes dos centros de referência precisam estar equipadas, treinadas e capacitadas o suficiente para resolver situações que as unidades básicas não vão conseguir solucionar quando começarem a surgir casos novos depois de um treinamento, por exemplo”, observou o presidente, que lembrou que a SBH tem provocado os gestores e as universidades no sentido de colocar a hanseníase na grade curricular e na realização de programas de enfrentamento da doença.

A dermatologista Lívia Bessa atua no programa de controle da hanseníase em São Paulo e inscreveu no congresso um trabalho sobre o controle da qualidade das baciloscopias realizadas na capital paulista. “Na cidade, temos a doença controlada desde o ano 2000, porém há detecção de casos em crianças, o que mostra que nós temos transmissão ativa dentro do município, e, apesar de ter controle, temos migração de muitas pessoas que vêm de outros lugares do Brasil para realizar o tratamento”, apontou Lívia, que citou que em 2017 foram registrados 125 casos novos da doença, considerado um baixo dado devido ao volume populacional de São Paulo. “Como profissionais de saúde, temos a função de lutar contra essa enfermidade, que é uma endemia no Brasil e está longe de ser erradicada”, afirmou.

Novas abordagens
O dermatologista e hansenólogo Marco Andrey Cipriani coordenou uma das mesas redondas do evento, sobre novas abordagens para o diagnóstico da hanseníase. Segundo ele, a proposta foi resgatar as linhas de pensamento antigas que resultem em um teste de sensibilidade mais objetivo e que possam ser facilmente adotados por municípios endêmicos. “A estesiometria é o uso do monofilamento, um instrumento que todos os municípios podem ter, de fácil aquisição e que não é caro. Com ele, podemos definir a ilha de alteração de sensibilidade, que dificilmente pode ser detectada em outra patologia”, exemplificou.

A mesa abordou, ainda, o escaneamento digital na detecção e definição dos limites de lesões correlacionados com alterações de sensibilidade e a termoterapia que estuda a alteração da temperatura da pele. “São máquinas fotográficas especiais que medem o quanto de calor aquela pele está emitindo. O que percebemos é que na hanseníase essas áreas têm baixa temperatura, circundada por uma pele com temperatura normal. Isso é um diagnóstico feito muito cedo e a doença tem cura nessa fase. Por isso, estamos reforçando o resgate de técnicas para avaliar essas disfunções que precedem, inclusive, as alterações de sensibilidade”, explicou, ao salientar que o diagnóstico requer comprometimento e paciência do profissional.


Sobre o congresso
O 15º Congresso Brasileiro de Hansenologia contou com diversas atividades que apresentaram desde a abordagem para o diagnóstico da hanseníase até os entraves para o enfrentamento da doença, bem como a prevenção de incapacidades, exames e medicamentos, por exemplo. O evento teve o patrocínio da The Novartis Foundation e contou com o apoio da prefeitura de Palmas, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), da Organização Mundial da Saúde – Escritório Regional para as Américas (OMS), do Ministério da Saúde e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O congresso contou com 675 pessoas inscritas, sendo 503 mulheres. Os inscritos eram de 126 municípios e vindos de quase todos os Estados brasileiros. Um total de 329 trabalhos científicos foram inscritos neste ano – 110 a mais do que o número de trabalhos recebidos no evento de 2017, realizado em Belém, no Pará. Foram promovidas 17 mesas-redondas, cinco cursos e uma conferência, além de reuniões e workshops. Contou com 102 palestrantes que trataram de temas ligados a pesquisa, políticas de saúde, tratamentos, direitos humanos e história, entre outros assuntos. Dentre os palestrantes, o congresso recebeu especialistas do Brasil, dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Holanda, da Suíça, de Portugal, da Bélgica, do Japão e da Índia. Por fim, na prova para obtenção do certificado da área de atuação em Hansenologia, 14 médicos foram aprovados.

Fonte: Site Surgiu, com informações da Sociedade Brasileira de Hansenologia