Notícias >

ONU mostra preocupação com incidência de hanseníase em crianças brasileiras

Crédito da foto: Divulgação

A relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Eliminação da Discriminação contra as Pessoas Afetadas pela Hanseníase, Alice Cruz, mostrou preocupação com o aumento no número de casos de hanseníase no Brasil, sobretudo em crianças. Em 2017, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país registrou 27 mil novos casos da doença, um aumento de quase 2 mil notificações em relação a 2016. Dos novos casos, 1.718 foram identificados em menores de 15 anos.

O Brasil, segundo o relatório da especialista, é o segundo na lista dos países que mais apresentam novos casos de hanseníase e tem 92% do total de casos registrados no continente americano. Apesar de ter destacado a queda no número de casos ao longo da década, Alice afirmou que a hanseníase é um importante problema para o país. Ela esteve em visita ao Brasil neste mês, ocasião na qual se encontrou com autoridades brasileiras, representantes da sociedade civil, professores universitários e profissionais da saúde.

“Deve ser feito mais para garantir a detecção precoce, o tratamento imediato, a reabilitação e a cirurgia reconstrutiva. Um padrão de vida adequado deve ser assegurado por políticas de redução da pobreza, bem como por meio da garantia da acessibilidade e da acomodação razoável nas escolas e nos ambientes de trabalho”, disse ela.

As regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste são as que apresentam os maiores índices da doença. O Mato Grosso é o estado com mais casos detectados. Em 2017, aponta o documento, 3.452 pessoas foram diagnosticadas com a enfermidade, e a taxa de novos casos era de 101,23 a cada 100 mil habitantes. Apesar disso, o Maranhão é o estado que registrou os piores números em três indicadores: é o segundo com mais casos detectados e o primeiro em novos casos em crianças menores de 15 anos e quanto ao grau 2 de incapacidade física no diagnóstico.

Para Alice, a incidência de hanseníase atinge, em sua maioria, “populações desprivilegiadas imersas em contextos de extrema vulnerabilidade socioambiental”. Ou seja, pessoas que vivem em condições de habitação e alimentação precárias estão mais suscetíveis a contraírem a doença bacteriológica. “Além disso, a estrutura política, econômica e social do município pode influenciar na organização dos serviços de saúde para a detecção precoce dos casos, tratamento oportuno e acompanhamento”, completou.

Ela reconheceu os esforços do Brasil no combate à discriminação contra as pessoas que têm hanseníase. O país é o único que possui legislação que proíbe linguagem discriminatória aos afetados pela doença. Contudo, afirmou que ainda encontra lacunas significativas que precisam ser resolvidas.

“As pessoas afetadas pela hanseníase continuam sofrendo preconceito, discriminação estrutural e interpessoal e têm acesso limitado a direitos fundamentais e igualdade substantiva. Elas e eles ainda lutam tanto para receber cuidados de saúde adequados e abrangentes quanto para obter educação e emprego. Alguns ainda procuram por seus filhos, dos quais foram separados de maneira forçada no passado”, reiterou Alice.

O relatório final da visita será apresentado ao Conselho de Direitos da ONU em junho de 2020.

Fonte: O Globo