Notícias >

História: parque paradisíaco no Havaí já foi uma zona de quarentena isolada de pessoas com hanseníase


Com diversos parques nos Estados Unidos fechados temporariamente para conter a disseminação do coronavírus (COVID-19), um parque nacional remoto no Havaí permanecerá aberto – para seus residentes, mas não para visitantes. O Parque Histórico Nacional de Kalaupapa fica em uma península isolada, separada do restante da ilha de Molokai por despenhadeiros de 600 metros de altura. Ao contrário de outros parques históricos que contam histórias do passado, a perspicaz guarda florestal Miki’ala Pescaia conta que Kalaupapa ainda está escrevendo sua própria história.

Kalaupapa é o lar de uma população de menos de doze ex-pacientes que tiveram hanseníase, os únicos residentes remanescentes entre as milhares de pessoas com a doença que ficaram exiladas no local cumprindo a lei da quarentena, a “Lei para Impedir a Propagação da Hanseníase”. Não existe nenhuma estrada que interligue a península à “parte superior” de Molokai; o acesso somente é possível por aeronave, barco ou mula (a última opção está indisponível no momento devido a um deslizamento de terra que danificou a trilha). Não há bombeiros, policiais, hospitais e ventiladores para tratamento em Kalaupapa. Qualquer pessoa que precise de atendimento médico é levada de avião para uma ilha vizinha. Se ocorrer uma emergência durante a noite, Pescaia diz: “você dependerá de seus vizinhos até de manhã. A ambulância aérea só voa quando o sol nasce.”

Com recursos médicos limitados e uma comunidade de idosos considerada de alto risco para a COVID-19, esse refúgio criado para manter pessoas doentes em seu interior agora está fazendo de tudo para manter pessoas doentes do lado de fora. O número de turistas no estado do Havaí caiu significativamente – de mais de 30 mil por dia em média (antes da pandemia) para cerca de 100 nos últimos dias. Agora, é necessário ficar em quarentena durante 14 dias após a chegada. Mas alguns voos ainda estão pousando no estado e alguns visitantes rebeldes estão desrespeitando as regras da quarentena, colocando em risco a saúde dos moradores locais. Mas Kalaupapa não está se arriscando. O Departamento de Saúde restringiu visitas ao parque e não emitirá mais permissões para visitantes. Kalaupapa está efetivamente fechado até segunda ordem.

Doença enraizada
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada por uma bactéria cuja transmissão possivelmente ocorre após contato próximo prolongado com uma pessoa infectada não tratada, por meio de gotículas de vapor expelidas pelo nariz e pela boca. A doença afeta os nervos, a pele, os olhos e o trato respiratório superior. Se não tratada, pode causar danos e desfiguração permanentes.

Embora agora possa ser tratada com uma combinação de medicamentos, não havia cura para a hanseníase quando a doença chegou na costa do Havaí, e o estigma associado à condição já existia no ano 2.000 a.C. Cerca de 95% da população mundial está imune à bactéria que causa a hanseníase. Mas vírus, bactérias e doenças trazidas por pessoas vindas de fora afetaram de forma devastadora os havaianos nativos que ficaram imunologicamente isolados por centenas de anos antes do contato com os europeus.

De 1865 a 1969, cerca de oito mil residentes havaianos com suspeita de ter contraído a hanseníase foram enviados à força para a península de Kalaupapa para se virarem sozinhos; quase todos eram nativos do Havaí. Muitos foram arrancados de suas famílias ainda crianças – o paciente mais novo de Kalaupapa tinha apenas quatro anos de idade. Por diversos anos, não houve instalações médicas adequadas ou profissionais de saúde no local. Os pacientes eram deixados lá para cuidar uns dos outros, e foram os kama’aina – havaianos nativos que moravam na península há centenas de anos antes da chegada dos pacientes – que os ajudaram.

“O governo continuava enviando cada vez mais pessoas e não conseguia manter o abastecimento básico, o que resultou em grandes dificuldades”, conta Valerie Monson, diretora executiva da Ka ‘Ohana O Kalaupapa, organização sem fins lucrativos criada a pedido dos moradores de Kalaupapa para defender a comunidade, criar um memorial e conectar os descendentes aos seus antepassados de Kalaupapa.

Um novo propósito
A cura para a hanseníase chegou ao Havaí em 1949, mas a lei da quarentena foi apenas revogada em 1969 – mais de 100 anos após sua promulgação –, quando os ex-pacientes receberam permissão legal para deixar o local. Mas nem todos saíram. “A maioria deles havia vivido lá durante a maior parte de suas vidas”, afirma Monson. “Naquele momento, Kalaupapa já era a casa deles”, completa. E alguns ex-pacientes que haviam perdido contato com a família fora de Kalaupapa não tinham para onde ir.

Com a redução da população de ex-pacientes que morava em Kalaupapa nos anos seguintes, os moradores começaram a se perguntar o que seria de Kalaupapa quando todos fossem embora. Os ex-pacientes “avaliaram diversas organizações”, diz Pescaia, “e escolheram o Serviço do Parque para contar a história.” Em 1980, o Serviço Nacional de Parques (NPS) instituiu Kalaupapa como Parque Histórico Nacional. O NPS arrendou terras do Departamento de Territórios Havaianos e firmou um acordo com o Departamento de Territórios e Recursos Naturais. O Departamento de Saúde continuou envolvido e até hoje atua como administrador das duas agências estaduais. Assumir a gestão do parque não se trata apenas de administrar a terra; também é um compromisso de proteger a comunidade e preservar seus recursos históricos e culturais.

Como guarda florestal do parque, Pescaia diz que seu trabalho envolve interpretar as histórias que os pacientes lhe confiam e facilitar um entendimento mais profundo da cultura, história, lições e recursos naturais de Kalaupapa para os visitantes. O trabalho dela vai além. “Uma das nossas funções essenciais [no Serviço Nacional de Parques] é garantir a segurança e o conforto da comunidade de pacientes remanescentes”, ressalta Pescaia. “Portanto, mesmo durante esse fechamento [com diversos outros parques e empresas fechados devido à COVID-19], sabemos do nosso dever de prestar serviços essenciais à nossa comunidade de pacientes e aos que vivem aqui, considerando a nossa localização isolada”, acrescenta.

Acabando com o estigma
Para Pescaia, o NPS e a comunidade também precisam considerar a saúde mental dos ex-pacientes, que ficaram profundamente traumatizados pelo distanciamento físico prolongado, pela discriminação e estigma associados à hanseníase. “No passado, não era permitido tocar nos pacientes. Tínhamos uma estrutura de fumigação para pulverizar as cartas e roupas deles. Tudo era separado. Os banheiros, por exemplo, eram separados para os pacientes e para os na kokua (cuidadores). Havia cercas que dividiam a mesa na casa comunal. Podíamos conversar com os pacientes através da cerca, mas não tocar neles”, explica.

Mesmo após a cura e a revogação da lei, alguns ex-pacientes continuaram a enfrentar discriminação. Algumas pessoas ainda os tratavam de maneira diferente, com medo de tocar ou ficar perto deles, sem saber como se relacionar com eles com segurança. Após décadas de isolamento, o toque físico tornou-se extremamente importante para a cura mental. Pescaia diz que abraços e cumprimentos diários são uma fonte de conforto. “Quando eles estendem as mãos, não hesitamos. É um ato de confiança e aloha”, ressalta.

Superando novos desafios
Agora que o contato físico pode colocar ex-pacientes em risco de contrair a COVID-19, Pescaia e a comunidade precisam evitar os apertos de mão e abraços habituais. Restringir as interações físicas é essencial para conter a disseminação do coronavírus, mas os novos protocolos desencadearam lembranças dolorosas. “Os ex-pacientes têm compartilhado histórias sobre a discriminação que sentiram durante toda a vida. Está sendo importante estar com eles e ouvi-los”, diz Pescaia.

Pescaia e os agentes do Serviço Nacional de Parques tratam as histórias com seriedade. A segurança é a prioridade e, em Kalaupapa, isso inclui o bem-estar psicológico. “A cada mudança nas políticas, temos que avaliar o que mantém a segurança física e emocional dos ex-pacientes”, afirma ela. Após anos de condições difíceis, regras rígidas e isolamento extremo que precederam a revogação da lei da quarentena, os ex-pacientes não querem voltar a uma vida de restrições. Por isso o NPS está fazendo o possível para validar as experiências dos ex-pacientes e também protegê-los.

Pescaia diz acreditar que pessoas de todo o mundo podem ajudar a honrar e proteger os moradores de Kalaupapa, refletindo sua força de espírito diante das adversidades e demonstrando aloha nas ações cotidianas. Ela sugere: oferecer ajuda a quem precisa; praticar a compaixão em vez do julgamento, especialmente àqueles acometidos pela COVID-19 ou outras doenças; e estar ciente de que suas decisões podem afetar os outros. “O seu comportamento pode colocar outras pessoas em risco. Todos nós podemos esperar. Podemos abrir mão de algumas semanas em troca [da saúde e segurança de todos]. Isso é aloha – cuidar de todos e encontrar uma saída juntos”, conclui.

Fonte: National Geographic